A canção do sul | O racismo no cinema

Tio Remus de A canção do sul
Zip-a-Dee-Doo-Dah foi uma música marcante em 1946. Ano em que chegava aos cinemas o primeiro filme da Walt Disney Pictures usando atores reais, A CANÇÃO DO SUL. O significado da canção era aproveitar a vida.

Dito isso, chega a ser curioso o filme ter sido acusado ao longo dos anos de fazer apologia à escravidão e ao preconceito com os negros.

A história gira em torno do pequeno Johnny que vai morar com a mãe no sítio de sua avó enquanto o pai lida com uma série de acusações em Atlanta. A Observação a seguir estudará os elementos que possivelmente levam a tal acusação à obra.

Cartaz do filme A canção do sul (Song of the south)
Em uma rápida pesquisa é possível descobrir alguns pontos questionáveis. São eles:
- Os brancos moram em uma mansão, os negros em pequenos casebres;
- Todos os empregados da mansão são negros.

Antes de elucidar tais pontos citados, vamos para uma breve – porém necessária – aula de história da escravidão nos Estados Unidos.

GUERRA CIVIL AMERICANA (ou GUERRA DE SECESSÃO)

A escravidão nos Estados Unidos teve início no século XVII, quando ainda era comum esta prática pelos espanhóis e portugueses em suas colônias na América Latina. A Guerra Civil – ainda hoje, a guerra mais sangrenta do país, com mais de 600 mil mortos – ocorre em um momento em que o país encontra-se dividido em dois modelos econômicos opostos que dividiam os estados do norte e do sul.

O norte (composto por 19 estados) progredia com a industrialização, à proteção de mercado interno e a mão de obra livre e assalariada. Já o sul (composto por 15 estados) tinha sua economia baseada na plantação e no escravismo.

Os dois lados já vinham em atrito há anos, mas o estopim da disputa foi a vitória do republicano Abraham Lincoln nas eleições presidenciais de 1960. Antes que assumisse o posto, 11 estados escravagistas declararam secessão e criaram um novo país, os Estados Confederados da América. A guerra começou quando forças confederadas atacaram o Fort Sumter, um posto militar na Carolina do Sul, em 12 de Abril de 1861, e terminaria somente em 28 de Junho de 1865, com a rendição das últimas tropas remanescentes da Confederação.

Divisão dos estados da União e da Confederação nos Estados Unidos durante a Guerra Civil
Os Estados Unidos durante a Guerra Civil. Em azul, os estados da União, em vermelho, estados da Confederação. Em azul claro, estados escravistas que mantiveram-se do lado da União, e em branco, territórios que seriam posteriormente elevados à categoria de estado.

A Constituição americana de 1776 dizia que "todos os homens são iguais". Ironicamente, após a independência ter sido alcançada, e até o fim da guerra, os Estados Unidos eram o maior país escravista do mundo. A aprovação da 13ª Emenda à Constituição estadunidense, ratificada no final de 1865, acabou oficialmente com a escravidão no país.

Porém, os negros continuaram marginalizados em todo o país, uma vez que leis anti-discriminação ainda não existiam. O sul foi ocupado por tropas do norte até 1877, e muitos negros foram colocados em posições importantes do governo dos estados sulistas pelo presidente Andrew Johnson (Lincoln foi assassinado dois meses antes do fim da guerra por um espião Confederado). A maior parte da população sulista sentiu-se humilhada com estas medidas, favorecendo o surgimento de sociedades secretas como os Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan, que empregavam a violência para perseguir os negros e defender a segregação racial.

OS NEGROS NO FILME

A Canção do Sul se passa no estado da Geórgia, um estado do sul dos Estados Unidos. Entretanto, não há datação na história. Vale citar esta como uma prática de Walt Disney para não envelhecer seus filmes, usada pelo estúdio até mesmo nos dias de hoje.

Cena do filme A canção do sulMas embora isso ocorra, é possível delimitar – tendo-se em conta figurino, cenário, ambientação e relação senhorio-empregado – que a história acontece em um momento muito próximo entre a Guerra Civil, seja antes ou depois.

Ressalta-se que os negros aparecem como empregados do casarão e morando em pequenas casas de madeiras, como a do Tio Remus.

ELUCIDANDO PONTOS

Há de se convir que no período em que centra o filme não havia provavelmente nenhum negro no país dono de terras ou de grandes companhias. O tráfico de escravos foi abolido nos EUA em 1815, mas persistiu até 1865, e boa parte dos negros acabou marginalizada. Isso em comparação com o atual panorama mundial, quando nos anos 2000 um negro conseguiu ascender a mais alta posição no país.

Portanto, é possível justificar as ações do filme alegando ser reflexo da época.

Capa do disco Walt Disney's Uncle Remus
Outro ponto importante é a família Favers – da qual fazem parte os dois garotos que vivem importunando o pobre Johnny. Embora sejam os únicos mostrados, comprova que na vila ao redor do casarão existiam também brancos morando em casebres humildes. Compondo a classe trabalhadora da época.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo filme racista é ruim. Há, no entanto, de se observar pontos importantes antes de se classificar um filme como tal. Por exemplo, o contexto histórico tratado no filme e o de quando ele foi elaborado, em se tratando de filmes antigos.

Fica aqui o exemplo de outras duas obras acusadas injustamente de também fazer apologia ao preconceito racial.

Tintim no Congo, um dos livros da famosa série belga de quadrinhos, é até hoje proibido em alguns países, outros o reservam para as seções proibidas para menores nas livrarias. A alegação é de que trata os negros como inferiores e contém violência aos animais. Já a defesa dos editores é de que a obra foi produzida em 1931, sobre um país que ainda era colônia da França – sua independência se daria apenas vinte e nove anos depois – e quando a caça ainda era livremente permitida.

James Baskett recebendo Oscar honorário por seu trabalho no cinema
James Baskett (Tio Remus em A Canção do Sul) recebe
Oscar honorário da academia
...E o Vento Levou levantou polêmica com a atriz Hattie McDaniel no papel de uma atrevida e desbocada empregada – curiosamente o mesmo papel que viveria anos depois em A Canção do Sul. Com tal, Hattie foi duramente criticada pela NAACP por rebaixar os negros na sociedade. Além disso, a atriz não foi a pré-estreia do filme em Atlanta por medo da ascensão da Ku Klux Kan no Sul. Mas foi com este que recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante, em 29 de fevereiro de 1940, tornando-se a primeira negra a receber tal honra.

Por mais que não represente o ideal de vida atual, com brancos e negros com os mesmo direitos e respeito mútuo, A Canção do Sul não pode ser considerado racista. É um filme encantador – com história bem montada e uma mescla de animação e atores reais invejável até aos dias de hoje – e merece uma nova revista para quem tiver a oportunidade.



A CANÇÃO DO SUL
Estúdio: Walt Disney Studios
Nome original: Song of the South
País de origem: Estados Unidos
Ano de lançamento: 1946
Elenco: Bobby Driscoll (Johnny), James Baskett (Tio Remus), Hattie McDaniel (Empregada Tempy), Ruth Warrick (Sally), Luana Patten (Ginny), entre outros.

23 comentários:

  1. Finalmente comentei!Eu leio, mas nunca dá tempo de comentar!
    Que época maravilhosa!
    Tudo era mais "puro".
    Eu realmente acho que essa coisa toda de "apologia" ao preconceito racial e a qualquer outro tipo de preconceito é muito mais moderna do que a gente pensa.Acredito que o objetivo maior dos filmes naquela época eram passar uma mensagem bonita!Tanto que lembramos deles até hoje.
    Bjs

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  2. Olá, moça.
    Muito obrigado pela sua observação. Concordo plenamente. Bons tempos, eu diria...rs.
    Beijos.

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    1. filme lindo que presa os valore da família . A Canção do Sul e uma obra que mostra bem como erra as coisas na época,que pobre morra em cabanas e rico em casaram coisa que sempre vai ser assim pois nunca seremos todos ricos.o tempo passa mais as situações serão sempre as mesmas.

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  3. Tiago, ainda não tinha tido a oportunidade de visitar seu blog, mas depois de ler um comentário no seu Face tive a curiosidade de acessar. Parabéns pelo blog. É isso que podemos dizer de pessoas trabalhando em prol da cultura e educação, mais uma vez parabéns!!!!

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  4. Obrigado pela mensagem, Gleice. Espero que possa visitar esse espaço sempre que puder. É bom vê-la por aqui. Beijos.

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  5. Bom dia Tiago, sou o Paulo Néry do Dihitt, tudo bom? gostei muito do seu blog e já estou a segui-lo. Esta mesmo e parabéns por magnífico trabalho de resgate de boas reminiscências. Convido vc a participar e seguir o meu, O FILMES ANTIGOS CLUB ARTIGOS, cuja temática é similar ao seu.

    Forte abraço e uma ótima semana.

    Paulo Néry
    FILMES ANTIGOS CLUB ARTIGOS
    http://www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com/

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  6. - Sensacional, tôda a análise e apresentação do conteúdo Tiago Souza - realmente inédito, creio eu na net (coisa que devia ser mais representado), mas natural, vindo de um Blog.

    Você honestamente, está de parabéns e, eu o peço permissão para exibir esse post sex. 25/11/ na série "Os 7 Mais Links da Semana" do blog RsD - Realizando Seus Desenhos.com

    - Eis o link pra vc conhecer uma das publicações da série:

    http://bit.ly/tSHEVk

    Até mais...

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  7. - Opa Tiago! Eu havia esquecido de clicar em "Votar" lá no diHITT, mas já resolvi tudo, vlw?!

    Até mais tarde...

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  8. Oi, Tiago!
    Esse texto me lembro do que ainda aqui no Brasil ocorre: Colocar atores da raça negra em novelas e filmes como empregados ou coisas do tipo. Não sei se tem a ver com escravidão, mas penso que, por outro lado, nós nos acostumamos tanto com essa forma de que negro sempre é o empregado (sem querer ofender) que acabamos cometendo o mesmo erro. Outra que em um programa jornalistico da tv que não me recordo qual era, colocar várias crianças para dizer qual era a boneca boa e a boneca má. Colocaram duas bonecas para as crianças escolherem: Uma branca outra negra. Pelas crianças, a boneca negra foi considerada a má. Deve ser o nosso mal costume de não mudar as idéias também... Até as crianças? É estranho, né?
    bjs! Adorei a matéria...

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  9. Olá, Lady. Que bom que gostou do texto.

    É nítido que há mais brancos nas novelas, principalmente nos principais papéis, do que negros. Por que isso ocorre? Bom, isso dá uma conversa longa e nenhuma tese que se confirme de fato.

    Quanto a esse programa que comentou, eu nunca vi. Mas você já ouviu, por exemplo, a brincadeira com Star Wars? O lado negro da força ser o lado do mal? Não sei se foi proposital ou não, não conheço o George Lucas para saber se ele foi preconceituoso ou não....a gente também tem que tomar cuidado antes de fazer acusações. E isso é complicado.

    Acho que está a nosso cargo, como pais, tios ou coisa assim, passar que o preconceito de qualquer forma é ruim.

    Beijos e obrigado novamente.

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  10. Ola, Paulo, desculpe só responder hoje. As coisas estão muito corridas. Agradeço o elogio e já estou contigo lá no seu blog. Abraço.

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  11. Tiago, temas polêmicos sempre geram muita repercussão, espero que agora você se sinta melhor com as pessoas comentando no seu blog, depois não reclame quando o volume aumentar.
    Quanto ao filme, esse personagem não seria um arquétipo do "Preto Velho" contador de histórias, personagem presente em várias culturas, mas com alterações pontuais? Tio Barnabé do Sitio do Pica-Pau-Amarelo não seria um representante desse personagem no Brasil?
    Até hoje nos EUA, as pessoas (e principalmente os militares) usam a expressão "white hat/black hat" para designar os "mocinhos" e "bandidos", provavelmente porque a cor preta sempre foi uma opção frequente na hora de escolher a camuflagem antes de uma ação (principalmente noturna) por elementos da sociedade como criminosos, assassinos, espiões etc. Vale lembrar o apelo da cor que remete às trevas, ao lado negro da alma humana etc. Por outro lado, o time do LA Raiders (atual Okaland Raiders) já usava o slogan: "True men wear black" ou como gosto em espanhol: "Hombres verdaderos visten negro". Não dá para afirmar preconceito proposital quando do uso da cor negra para definir vilões, muitos heróis usam essa cor em seus uniformes.
    É isso ai, vamos em frente.

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  12. oi vim conhecer seu blog muito legal ! curt filmes então confere : espero que goste se poder assine o feed e segue ok ! abçs clica para entra no site e seguir

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  13. ola passei aqui para desejar boas festas com alegria e amor e aproveitar e deixar meu convite do meu blog siga e fique atualizado via feed !!
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  14. Curioso que hoje em dia na maioria dos filmes estaduninenses os empregados são latino-americanos.

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    1. Concordo, Antonio, mas há brancos e negros também como empregados. Acho que hoje os filmes são mais moderados nesse sentido. E outra, ter latinos-americanos reflete parte da sociedade de lá, felizmente ou infelizmente. Assim como em A Canção do Sul os negros eram apenas empregados/escravos. Abraços.

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  15. Olá Tiago, gostei imensamente do seu Blog, assisti a esse filme inúmeras vezes com meus filhos, um prazer enorme resgatá-lo, pois o filme é muito lindo, singelo, divertido, e nos dá uma vontade imensa de sair cantando, saltitando e aproveitando a vida com alegria e amor, concordo com você sobre a injustiça em sugerir racismo no tema, é um filme maravilhoso e deveria ser assistido sempre. Agradeço muito, pois há muito tempo eu lembro desse filme e nunca cheguei a procurar no You tube, mas eu gostaria de assistir a íntegra desse tesouro!um abraço e sucesso.

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    1. Olá, Kátia. Obrigado por visitar o blog. É um desafio e tanto mantê-lo, mas já se completa dois anos! Quando fiz este texto encontrei o filme completo no YouTube, não sei se ainda está lá, mas vale a pena procurar. Eu o tenho com grande carinho, porque marcou minha infância e demorei bastante para reencontrá-lo. Abraços e volte sempre!

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  16. Verdade! O filme é encantador, um dos maiores clássicos de todos os tempos, inclusive naquela época! É que tipo, não se pode nem ver um filme em que tem atores negros, e já ficam acusando de racismo e não sei o que tem mais... Aliás, a Disney produz clássicos baseados em filmes que ficam perfeitos! Sinceramente, eu acho que eles deveriam reestrear esse filme... Lindo mesmo!

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    1. Concordo, COMICakker Stinf. Obrigado pelo comentário!

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  17. No sul dos estados Unidos e nas Bahamas, nos contos populares, o Br’er Rabbit, de origem africana, inferniza a vida de seus tradicionais inimigos, o principal deles a raposa. O personagem protagoniza as aventuras compiladas e recontadas por Chandler Harris na obra Uncle Remus, publicada em 1881. O Br’er (contração de brother (irmão) entrega a origem africana do personagem. No Brasil, os animais, mesmo os rivais, se tratam por “amigo (a)”, “compadre”, “comadre”, etc., valendo a cordialidade como estratégia de atração, por parte do predador, geralmente a onça, e de defesa, por parte da aparente presa: macaco, coelho, sapo etc. O livro de Chandler Harris serviu de base para o filme da Disney, e o Br'er Rabbit, o coelho esperto do filme, que nos quadrinhos brasileiros se chamava Quincas, inspiraria outro coelho malandro dos desenhos animados: o famoso Pernalonga.

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  18. Ótimo conteúdo referente a esta obra maravilhosa que é A CANÇÃO DO SUL.

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  19. Filme lindo, seus comentários são irretocáveis! Surpresa boa conhecer seu blog!

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