Peter e Wendy | O lado mau do menino que não queria crescer


Capa do livro Peter Pan (Peter e Wendy / Peter Pan em Kensington Gardens), de J. M. Barrie (L&PM)“Todas as crianças crescem, exceto uma. Elas logo descobrem que vão crescer, e Wendy descobriu assim: Um dia, quando tinha dois anos de idade, ela estava brincando num jardim e colheu uma flor a mais e correu com ela até sua mãe. Acho que Wendy devia estar mais graciosa do que nunca, pois a sra. Darling levou a mãe ao coração e exclamou:
- Ah, bem que você poderia ficar assim para sempre!
Isso foi tudo o que houve entre elas em torno do assunto, mas dali em diante Wendy soube que iria crescer. Todo mundo sabe, depois de fazer dois anos. Dois é o começo do fim” (pág. 9).

Assim começa PETER E WENDY, livro escrito em 1911 por James Matthew Barrie, que conta a história original de um personagem que marcou gerações, principalmente por conta da produção da Walt Disney Company de 1953.

Entretanto, o Peter Pan do livro, apesar de ser tão inocente quanto o do cinema, tem um quê a mais, uma maldade inocente por assim dizer, que muitas crianças têm, mas talvez não tão em excesso. A Observação a seguir tratará deste ponto.

UM POUCO DA HISTÓRIA DO LIVRO

É importante mencionar que Peter e Wendy não é a primeira versão de Peter Pan. Barrie (Kirriemuir, Escócia, 1860 – Londres, Inglaterra, 1937) trabalhou como jornalista até 1885, quando mudou-se de Nottingham para Londres. Lá começou a escrever livros e peças para jornais, entre eles o St. James’s Gazette, em grande parte obras de cunho humorístico.

Seu primeiro livro publicado foi Auld Licht Idylls, em 1888, coletânea de esquetes sobre a Escócia rural no início do século XIX, logo alçado a sucesso. Após uma série de bons resultados, passa a se dedicar ao teatro, com a biografia de Richard Savage (1891). Leva dez anos para embalar obras sucesso de crítica e bilheteria, entre elas Peter Pan, or The Boy Who Whould Not Grow Up (1906). A obra foi baseada no livro The Little White Bird (1902), do próprio autor, onde o protagonista aparece em alguns capítulos.

Capa do filme estadunidense Em busca da Terra do Nunca, com Johnny Depp e Kate WinsletEm decorrência de seu sucesso, em 1911, fez da peça o romance Peter e Wendy.

O filme Em Busca da Terra do Nunca (Estados Unidos, 2008) conta em partes a produção da sua mais famosa peça, embora alguns detalhes tenham sido ocultados e outros alterados. Por exemplo, James Barrie manteve relação próxima não apenas Sylvia Llewelyn Davies como também com seu marido Arthur (não mostrado no filme). Após a morte do patrono da família, Barrie passou a ajudar a viúva financeiramente, além de assumir a guarda das crianças após a morte desta (assim como mostrado no filme).

Manteve relação bastante afetiva com os cinco (e não quatro como no filme), sendo que o personagem Peter Pan foi inventado para entreter George e John. O escritor dizia, para diverti-los, que o seu irmão mais novo, Peter, podia voar.

MENINO MAU

A animação da Disney segue bastante a risca o livro de James Matthew Barrie. Peter Pan, um garoto que se recusa a crescer, perambula pela casa dos Darling em Londres atrás de sua sombra quando encontra os irmãos Wendy, João e Miguel, que tinham ouvido algumas histórias do tal ser.

Capa do filme animado da Disney Peter PanPeter leva as três crianças para um passeio na Terra do Nunca, uma ilha encantada onde moram Peter, a fada Sininho (e também outras fadas), os meninos perdidos, sereias, índios e um malvado pirata conhecido como Capitão Gancho, que jurou se vingar de seu arqui-inimigo.

Gancho perdeu uma de suas mãos em um duelo com Peter Pan, com ela tendo sido comida por um crocodilo que agora sonha em devorar o restante. Tudo realmente se complica quando Sininho fica com ciúme de Wendy e quer prejudicá-la.

Até por ser voltada ao público infantil, a animação deixa de fora os pontos mais fortes da obra de Barrie. Segundo o livro, na briga de Pan com Gancho, que ocasionou a perda da mão deste último, por exemplo, é Peter quem arranca a mão do pirata e depois a joga para o crocodilo.

Ainda que as duas obras mantenham o humor em alguns pontos, como este: “Smee, aquele crocodilo já teria me devorado a essa altura, mas por um lance de sorte ele engoliu um relógio que fica fazendo tique-taque dentro dele, e por isso, quando ele chega perto de me alcançar, eu ouço o tique-taque e fujo como um raio” (pág. 64).

O ‘herói’ também não é nem um pouco bonzinho com Wendy. Ao levá-la para a ilha resolve tratá-la como mulher (embora neste ponto ela esperasse que isso fosse verdadeiro, e portanto até se permite se levar por tal situação): a garota tem os meninos perdidos como filhos, impõe horários para todos dormirem, tem de lavar e costurar suas roupas, enquanto eles ficam com toda a diversão, e aceitar Peter do jeito que ele é, o que inclui tratá-la com certo desdém (embora fizesse o mesmo com as sereias e com a índia Flor de Lírio-Tigre, também apaixonada por ele).

“Acho que Wendy devia estar bastante arrebatada, porque aqueles meninos turbulentos lhe davam muito trabalho. Realmente, ela chegava a passar uma semana inteira embaixo da terra, sem sair nenhuma vez, exceto para recolher lenha ou algo assim, à noite. A preocupação da comida, posso garantir, mantinha seu nariz grudado nas panelas o tempo todo” (pág. 80).

Capa da animação Peter Pan - De volta a Terra do NuncaOutra diferença no livro é que Peter mata piratas, e muitas vezes nem se recorda que o fez, enquanto piratas matam índios aos montes. Logo no início também somos informados que o número de meninos perdidos é variado, “dependendo de quantos são mortos e assim por diante; quando eles dão mostras de estar ficando mais velhos, o que contraria as regras, Peter os corta do grupo” (pág. 56).

Ao final, Peter negligência até mesmo a morte de Sininho, que no filme é considerada sua amiga inseparável. “São tantas fadas. Acho que essa já morreu” (pág. 167). E também Gancho, “eu me esqueço deles depois de matá-los” (pág. 167). Muito diferente da continuação da produção da Disney, Peter Pan - De volta à Terra do Nunca, onde os mesmos ainda estão vivos quando Jane se torna companheira do protagonista.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como havia dito na introdução, essas ‘maldades’ de Peter Pan soam no livro como ‘inocentes maldades’. Ele não parece levar em considerações suas ações nem positivamente, nem negativamente, as faz apenas por puro prazer ou diversão, esquecendo em seguida.

Capa do filme Hook - A volta do Capitão Gancho, de Steven SpielbergNo final, praticamente nem se dá conta de que com o passar dos anos troca Wendy por sua filha, Jane, depois Jane por sua filha e assim sucessivamente. É realmente uma eterna criança que não se preocupa em saber como funciona a cabeça de uma pessoa mais velha e questões da juventude, como apaixonar-se, por exemplo. Muito diferente de outra conhecida adaptação da história para os cinemas, Hook – A volta do Capitão Gancho (1991), onde ele abdica da infância em prol da filha de Wendy (aqui chamada de Moira).

Talvez aí esteja o sentido do livro: não negligenciarmos a infância, aceitarmos sua inocência, pois um dia tudo terá de ser levado a sério e este, portanto, terá sido um momento único.

PETER E WENDY
Título original: Peter and Wendy
Autor: James Matthew Barrie
Editora: L&PM
Número de páginas: 175
Ano de lançamento: 2011
O romance divide o livro com a primeira versão de Peter Pan na literatura (Peter Pan em Kensington Gardens)

10 comentários:

  1. Confesso que li O Espinafre de Yukiko impulsionada por suas observações, que por coincidência foi publicada exatamente há 1 ano, também uma sexta-feira 13. E confesso também que depois desta leitura não fiz nenhuma outra. Às vezes a cabeça está tão cheia que não cabe nem paciência dentro... mas enfim, após 1 ano vejo em minha caixa de entrada outro convite à leitura, especial por ser comemorativo e por me deixar curiosa. Deixando aqui meu feedback, adorei o texto e, assim como aconteceu da primeira vez, me sinto novamente instigada a ler um objeto de suas observações. Parabéns pelo trabalho! Saudade de conversar com vc! Bjo!

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    1. Olá, moça. Que saudade de você! Fico muito feliz por te instigar o prazer pela leitura. Meu objetivo aqui nunca foi fazer com que todos lessem ou vissem tudo o que posto, afinal sei muito bem que cada um tem seu gosto (e realmente, o tempo está voando ultimamente), mas vez ou outra chamar a atenção para determinada obra. Gosto quando acerto. Beijos e obrigado pela visita!

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  2. Ois

    Assim como a Gaby Santos, fiquei curiosa para ler a obra analisada. Gosto muito do clássico Peter Pan, tanto que um de meus e-mails é peterpandetrancas@hotmail.com. Quando fiz esse e-mail eu sempre andava de tranças e queria parar no tempo.
    O que mais me encanta nessa obra é exatamente o que você mencionou logo no início do post: o fato de que não podemos evitar o envelhecer. Tenho medo de envelhecer, também por questões físicas, tenho pavor de ficar doente, depender dos outros para realizar as atividades mais simples. Viver apenas por viver, passar os dias, arrastar as horas... talvez esse seja o meu destino. Só uma intuição.
    Se eu pudesse escolher o momento para parar de crescer, esse momento não seria a minha infância. Não sei se fui feliz, não tenho tantas lembranças assim, recordo, porém, que nunca tive vontade de fazer 15 ou 18 anos como algumas amigas minhas desejavam. Nunca tive pressa, nunca quis pular etapas, não fui uma criança divertida, brincalhona, arteira. Sempre fui introspectiva e medrosa. Minha maior frustração é nunca ter aprendido a andar de patins. Talvez eu precisasse de um tempo maior para fazer o que as outras crianças faziam naturalmente. Talvez se eu voltasse a ser criança hoje, eu me arriscasse mais. Talvez...
    Como aqui não é um confessionário, encerro por ora minhas divagações e concluo com uma frase que escrevi há muito, muito tempo (em 2005 para ser mais exata): "Descobri porque gosto tanto de Peter Pan. O meu problema são os meninos perdidos..."

    abraços
    saudades
    AC

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    1. Olá, fico muito feliz de saber que a leitura do meu texto te instigou a ler o livro (e muito me alegra, porque considero este como um dos melhores textos que fiz para o blog até hoje). Só acho curioso que não tenha feito isso antes já que gosta tanto do personagem...rs.

      Gostar de envelhecer, acho que ninguém gosta. Eu me acostumei com este fato por conta de sua inevitabilidade e creio que minha visão mudou quando tive filhos, passei a querer vê-los crescer e aprender com o tempo. Tanto que me esqueci em vários momentos que envelhecia também.

      Tive meus momentos de solidão na infância, mas por vontade própria. Sempre valorizei momentos em que eu pudesse passar comigo mesmo. Tanto que inventei histórias, jogos para eu pudesse ficar somente comigo. Tentei ter um amigo secreto, mas ele não quis papo, então deixei ele para trás...rs. Se eu pudesse voltar no tempo, tentaria ser mais sociável (embora eu me lembre de ter muitos amigos).

      Minha maior frustração foi não ter tido coragem de dizer para uma garota no fim da oitava série que eu gostava dela. Lembro-me de me despedir (eu ia mudar de cidade) e vê-la chorar. Estudamos juntos por dois anos e meio e sempre gostei dela. Ao vê-la chorar, tive certeza de que, pelo menos um pouco, ela gostava de mim. Mas não tive coragem. Acho que isso me bloqueou por um tempo...

      Eu tenho uma frase ótima do Peter, mas eu não lembro mais qual...só vou saber quando reler o livro. Mas fica para outro dia...

      Beijos,
      TS

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  3. Olá amigo...risos

    Tenho muitos livros na lista de espera. É estranho, mas depois que comecei a dar aulas passei a ler menos os títulos que me agradam e comecei a me dedicar mais à leitura dos clássicos. Isso não significa que eu não goste dos clássicos, mas como professora me sinto na obrigação de conhecer determinadas obras.
    Outro problema que já comentei pessoalmente com você é o meu excesso de sono. Ontem, por exemplo, dormi 12 horas e quando mais tarde fui ler, fiquei com sono do mesmo jeito. Não acreditei. Estou revoltada. Até no Instituto do Sono eu já fui e o exame não acusou nada de anormal.
    Parece brincadeira, mas esse sono tem me atrapalhado muito. Não sei o que fazer, além de dormir...risos.

    Um grande beijo
    AC

    ps: amei seu comentário, principalmente a parte que você fala dos seus filhos. Só para constar, eles são lindos.

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  4. Olá moço... risos

    Só complementando, quando cito os clássicos me refiro aos clássicos da Literatura brasileira e portuguesa, afinal Peter Pan também é um clássico para mim...risos.
    O que quis dizer é que sempre me dediquei mais à leitura dos cânones por ter um desejo desde a adolescência de ser professora. Hoje eu sou e não quero mais... vai entender.
    Para falar a verdade estou prolixa hoje, escrevi, escrevi e não disse nada. Acontece!

    b.
    AC
    Fui!!!!!!!

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    1. Sim, sei bem que você gosta de dormir...rs.

      Quanto a leitura, eu leio de tudo - o próprio blog é uma comprovação deste fato -, mas o que mais me agrada são os romances. Entretanto, de tanto ler, percebi que os que valem mesmo a leitura são os clássicos (adoro Jane Austen). Os livros atuais são bobos, feitos para um público que não me encaixo, mas entendo que eles tenham um valor (ao menos como entrada na leitura).

      Creio que você escreveu muita coisa hoje, ao contrário do que diz. Tivemos um debate curto, mas interessante. Recebi boas notícias (vou ter um texto seu!), a conheci melhor (gosta do Peter, ama o filme Orgulho e Preconceito, lê clássicos e dorme bastante) e tive o prazer da sua visita no meu blog (comentando ainda por cima). Quer mais? rs

      Beijos,
      TS

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  5. Eu adoro esse livro, é demais, vejo tantas coisas nele e cada vez que leio encontro coisas que não estavam lá da última vez. Tenho até uma tatuagem com minha frase preferida de Peter: "Que esperteza a minha!". kkkk

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    1. Olá, Camila! Realmente é um livro lindo. Lembro que procurei a leitura porque fiquei encantado com o filme Em Busca da Terra do Nunca, e não me arrependi nem um pouco de tê-lo feito. Adorei sua tatuagem...rs.

      Beijos e obrigado pelo comentário!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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