O feitiço de Átila | Crônica de um amor impossível


Capa do filme O feitiço de Áquila, de Richard Donner
A história de um amor fadado a nunca se consumar. Graças a uma terrível maldição, ele transforma-se em lobo à noite, e ela em falcão durante o dia. E assim estão impedidos de se encontrar, a menos que possam se libertar desse doloroso feitiço. Uma aventura excitante e mágica na era medieval.

Assim resume-se O FEITIÇO DE ÁQUILA, de Richard Donner, lançado em 1985. “A lenda mágica de um amor inesquecível”, como bem diz a capa do filme, é uma obra que conta com uma trama bastante simples e de encanto fácil.

A Observação a seguir segue a trilha da história, tentando narrá-la de uma maneira diferente, e busca identificar, no final, o que há de melhor e pior no longa-metragem.

“CADA MOMENTO QUE PASSA COM ELA, EU O INVEJO”

Diz a história que Deus ilumina o caminho daqueles que esperam que lhes seja iluminado. É preciso estar atento aos mínimos detalhes porque muitas vezes a luz é tão clara que fica visível por poucos momentos, como em um rato que sonha (e consegue) fugir das masmorras de um palácio pelos fétidos esgotos.

Matthew Broderick como Phillipe Gaston no filme O feitiço de Áquila
Matthew Broderick em um de seus
primeiros papéis relevantes
O rato em questão não é um rato de verdade, é um homem. Um homem ligeiro e escorregadio com apelido de rato. Não sabemos o que ele fez para lá estar, mas sorrateiro que é, não é difícil imaginar. E ele conseguiu uma façanha, afinal fugir de Átila e do senhorio local, um bispo cheio de poder, não é lá muito fácil. Aliás, como bem diz, é o primeiro a conseguir.

Sua façanha, entretanto, não ficará incólume ao bispo e o general local logo o encontrará. Mas lembre-se, neste mundo as coincidências são nítidas para os que estão com os olhos bem abertos, e nosso amiguinho – bem como seus perseguidores – topará com uma estranha figura. Um homem altivo, bem vestido e com comportamento elegante o ajudará. Tal ser procura alguém, mas um alguém muito bem definido: alguém que conheça uma forma de entrar sorrateiramente em Átila.

Conhecemos alguém que pode ajudá-lo, você dirá! Mas não é tão simples assim. Apesar da salvaguarda, nosso bom amigo rato não se mostra lá muito disposto a ajudá-lo. Mas há a dívida de honra, afinal se alguém lhe salva a vida você ficará de certa forma ‘devendo’, não é?

Rutger Hauer como Capitão Navarre no filme O feitiço de Áquila
Rutger Hauer como o valente Capitão Navarre
Ah, esqueci-me de um importante detalhe, o nobre homem carrega consigo um belo falcão. Mas, curiosamente, durante a noite não há sinal de homem ou animal. Surge apenas uma bela mulher, saída sabe-se lá onde, mas de encantador e penetrante olhar, além de uivos ao longe. Não há um forte mistério aqui, caro leitor, afinal já estamos ciente disso desde a sinopse lá na apresentação. Mas o que afinal impede o encontro dessas duas pessoas/animais?

“O AMIGO MAIS FIEL QUE JAMAIS TEREMOS”

A descoberta virá daquele que foi um dos culpados de tal maldição, um padre que agora vive em um lugar vagabundo. O motivo de sua retidão foi ter aberto a boca demais quando não devia, revelando ao bispo o amor de uma mulher – por quem sordidamente este proclamador da voz de Deus tem uma estranha atração – e o general das tropas do exército. O bispo apela para as forças do mal e invoca a maledicência que os separará durante os períodos do dia. E assim, ele passa a transforma-se em lobo durante a noite e ela em falcão durante o dia.

Mas há um modo de sobrepujar a maldição. O descrente nobre não confia muito na ideia, afinal partiu do padre que o havia traído. Mas seu agora amigo, rato, crê que esta seja uma saída. Ele, sabiamente, vira o elo forte da união dos amantes desunidos, contando belas palavras não legítimas para um e para o outro, como se tivesse virado confidente de ambos.

Michelle Pfiffer como Isabaeu d'Anjou no filme O feitiço de Áquila
Michelle Pfiffer como Isabaeu d'Anjou
E com isso, rato e padre – junto da moça – traçam um plano para que o homem/lobo possa aceitar. É sabido, entretanto, que não dará certo. Mas é no erro que muitas coisas acabam saindo. Rato acaba ferido na tentativa – vitoriosa – de salvar o lobo que havia caído no rio, após a fina camada de gelo em seus pés se quebrar quando atendia o chamado da moça. O plano consistia em permitir que os dois, homem e mulher, pudessem se ver ao menos uma última vez, mas só deu certo porque rato teve seu peito marcado pelas garras da fera quando pulou na água para salvá-lo. Oh, não foi muito sábio de nosso pequeno amigo, mas felizmente foi algo positivo. E eles partem para o plano final do padre em destino a Átila.

A maldição acaba, por fim, quebrada por um mero detalhe: um eclipse. Aquele que põe fim a divisão entre dia e noite e a única maneira de quebrar o infortúnio! Sendo que quando ocorresse, ambos deviam estar pisando na Igreja. E foi justo no momento em que o nobre cavaleiro partiu para o tudo ou nada com o bispo, que será morto por achar que vilões tinham que ser vitoriosos no final. O amor prevalece mais uma vez.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Feitiço de Átila foi feito em uma época dourada da carreira de Richard Donner, alçado ao sucesso após Superman I e II (embora não seja creditado no segundo por divergências com os produtores).  Após o filme de fantasia, dirigiu Os Goonies, Máquina Mortífera (foi responsável pelos quatro longas da cinessérie) e Os Fantasmas Contra-Atacam, antes de passar mais tempo fora do set do que dentro, atuando como produtor.

Cena do filme estadunidense O feitiço de Áquila
A bonita história também contou com atuações inspiradas de Rutger Hauer no papel do Capitão Etienne Navarre (o homem que vira lobo) e Michelle Michelle Pfiffer, como Isabeau d’Anjou (a mulher-falcão).  Mas apresenta algumas falhas, tanto na trama como no restante elenco. Matthew Broderick já apresentava sua canastrice ainda no começo da carreira (embora tenha tido um vislumbre de esperança no ano seguinte com Curtindo a Vida Adoidado), o que tornou seu personagem, Phillipe Gaston, bobo e irrelevante.

Já a trama é simplória, o que a torna de fácil entendimento. A quebra da maldição é algo facilmente contornada, sem exigir muito dos personagens. Enquanto a trilha sonora é um caso a parte, toda instrumental, bela de se ouvir separadamente (inclusive foi uma das responsáveis por mudar a métrica de Hollywood, junto das composições de John Williams e James Horner para outras obras), mas soa estranha em algumas partes do filme, principalmente quando o Capitão Navarre entra em ação.

No fim, é um filme simpático e agradável de ser ver, bom para ficar um tempinho ao lado da pessoa amada. E para quem já conhece, vale a pena conferir Linha do Tempo (2003), do mesmo diretor, que segue a mesma linha e agrada da mesma forma.

Confira o trailer do filme:

O FEITIÇO DE ÁQUILA
Título original: Ladyhawke
Estúdio: 20th Century Fox e Warner
País de origem: Estados Unidos
Ano de lançamento: 1985
Elenco: Matthew Broderick (Phillipe Gaston), Rutger Hauer (Capitão Etienne Navarre), Michelle Pfiffer (Isabeau d’Anjou), John Wood (Bispo de Áquila), Leo McKern (padre Imperius)
Roteiro: Edward Khmara
Direção: Richard Donner

6 comentários:

  1. Bem, não tenho esse olhar crítico para o cinema. Sei apenas que gosto desse filme, principalmente pela impossibilidade da união entre o homem-lobo e a mulher-falcão. Segundo um grande amigo meu, tenho predileção por histórias tristes. Provavelmente gostaria ainda mais do filme se o encanto não fosse quebrado...risos.
    Acho que por conta disso minha cena favorita é quando por um brevíssimo instante, sob a luz do sol, eles conseguem se olhar. Apenas por um instante.
    Adoro instantes. Lembro de brincar na minha adolescência de "momentos para se eternizar". Eu fazia silêncio por alguns instantes e pedia mentalmente para que aquele momento se tornasse eterno. O desejo de preservar a felicidade que é tão fulgaz.
    Preciso voltar a brincar...

    abraços,
    AC

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    1. Senti uma certa tristeza em suas palavras, minha cara. Honestamente, não gostei do resultado final deste texto, assim como não gosto de alguns que faço, e creio que se tivéssemos conversado sobre ele antes (e com esse seu viés) teria tido muito mais exito.

      Você podia montar um texto qualquer dia para este blog, sabia disso, né? Está mais do que convidada.

      Quanto a momentos para se eternizar, lembro-me de quando deitava na calçada de casa no interior junto a um amigo e ficávamos confabulando sobre o que esperávamos do futuro. Creio que pouco, ou quase nada, se concretizou. Mas valeu por estar ao lado de um amigo...

      Beijos,
      Tiago.

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  2. Sou uma alma velha, meu caro amigo. Uma alma velha e cheia de lembranças... boas e não tão boas. Ainda quero preencher meu álbum de muitos momentos para eternizar. Já tenho alguns, geralmente vividos ao lado de amigos, como você mencionou.
    Recordo do dia em que comprei a coleção de livros "As brumas de Avalon". Foi um desses momentos, estava com minha grande amiga Paloma, companheira de muitas jornadas. Você poderia escrever sobre esses livros ou sobre o filme, que obviamente não é tão bom. Gostaria de ler com o seu viés...risos.
    Quanto a escrever um texto para o seu blog... bem... quando eu vencer a preguiça que me consome, ficarei muito feliz em fazê-lo, embora não goste de tornar público o que escrevo. Em geral, depois que leio pela terceira vez os meus textos, encontro tantos defeitos que prefiro guardar só para mim.
    Não estou pronta para as críticas alheias, as minhas já são suficientemente cruéis...risos

    abraços
    saudades,
    AC

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    1. É como eu estava dizendo hoje para uma amiga nossa em comum que não crê muito nisso...a vida é cheia de histórias, todos os meus livros, quadrinhos e filmes têm uma, músicas me lembram de bons ou maus momentos. É algo que me deixa feliz.

      Sendo bem honesto, não gosto de 70% dos textos que escrevo para o blog, mas me propus escrever um texto por semana justamente para melhorar. Acho podia se colocar este desafio. Aproveite as férias de dezembro/janeiro, quero muito receber um texto seu.

      Quanto às críticas, elas acontecem, são parte do processo. Mas cá entre nós, as críticas aqui são em um número bem menor do que eu gostaria...rs. Tente, arrisque. Terei o maior prazer em ser seu editor.

      Beijos,
      Tiago.

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  3. Ola!
    Tiago, quantos diálogos! Realmente, quando li seu texto sobre este filme "tão antigo", fiquei impressionada. Este filme assisti uma única vez na sempre boa Sessão da Tarde e NUNCA mais me esqueci dele!Que bom que vc é romantico...hehehehe
    Veja se responde responde e-mail... V.Z

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    1. Olá, moça, tudo bem? Bom vê-la por aqui. Honestamente, como escrevi para minha amiga acima, este não foi um dos meus melhores textos. Tem outros aqui no blog que gostei mais de escrever. Mas, enfim, romântico sou mesmo...rs.

      Pode deixar que responderei o e-mail.

      Beijos.

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